A DOR TRANSFORMADA EM LUTA

Em 27 de julho de 2004, Emília Alfredo Manganotti, aos 85 anos de idade, foi internada no Complexo Hospitalar Municipal Maria Braido, em São Caetano do Sul (SP), para remover dois tumores intestinais.

Segundo Escritura Pública de Declaração, registrada nas páginas 178/179 do 2º Tabelião de Notas de São Caetano do Sul, Livro nº 515, de 10 de agosto de 2004, cuja declarante, Senhora Sônia Maria Tartare, filha da paciente, relata que os fatos cronologicamente, assim se processaram:

1 - 27 de junho/2004: Internação;
2 - 28 de junho/2004: Cirurgia e colocação de bolsa de colostomia;
3 - 28 de junho/2004: Paciente encaminhada para a UTI;
4 - 15 de julho/2004: Realização de traqueostomia;
5 - 26 de julho/2004: Paciente deixa a UTI sendo transferida para leito no 3º andar;
6 - 26 de julho/2004: Paciente é removida para o 2º andar.
7 - 05 de agosto/2004: Paciente retorna para a UTI
8 - 20 de agosto/2004: Paciente vem a óbito no Hospital Municipal Maria Braido, às 19:15 horas.

A declarante ainda diz:

"A paciente voltou para a UTI devido a falta de ar e vermelhidão no corpo, principalmente nas pernas, sendo que o médico solicitado, apenas observou-a de longe e diagnosticou por estar muito tempo deitada." "... quando retornou a UTI, os três médicos diferentes diagnosticaram três problemas diferentes; um dizia que era problema vascular, outro dizia ser problema de pele (erisipela) e outro diz ser problema no sangue, ou seja, total incoerência nas informações passadas para a família, nos deixando a cada dia mais sem saber da real situação da saúde de nossa ente. Também foram realizados alguns exames como: ecocardiograma (sendo este realizado em outro local que não o Hospital. Este exame foi realizado a pedido de um dos vários médicos que passaram pela paciente alegando que a mesma tinha problemas no coração), ultra-sonografia da bexiga (este foi realizado a fim de verificar alguma lesão, pois quando foi retirada a sonda observamos que vazava urina pelo dreno da cirurgia) e a biopsia dos tumores quando foram retirados na cirurgia. Até esta data não nos foram informados sobre o resultado deste exame. Esta situação já passa de 40 dias e até este momento não vi nenhuma atitude real e uma posição concreta sobra a situação de saúde e a recuperação da paciente que sofre a cada dia, chegando a contrair feridas pelo corpo por estar todo este tempo deitada. Sobre isto devo informar que, por minha iniciativa, comprei aparelhos como botas de espuma e assento próprio para amenizar as feridas." "...A paciente também contraiu infecção sangüínea e as bolsas utilizadas constantemente se rompiam, tendo que limpar a paciente e trocar as roupas freqüentemente..."

E complementou:

"Durante todos esses dias que eu acompanhei intensamente, pude verificar que a situação geral em relação ao hospital é:

1º) falta de capacitação dos profissionais (médicos recém-formados e quadro de enfermagem inexperiente),
2º) falta de funcionários (observamos, principalmente no feriado de 28 de julho, que não havia praticamente nenhum funcionário),
3º) falta de coerência nas informações transmitidas à família sobre as condições reais do paciente,
4º) falta de higiene na manipulação em áreas de risco de contaminação para os pacientes,
5º) funcionários trabalhando 24 horas seguidas. O que prejudica sua capacidade."

"Através deste relato sobre as más condições dentre de um 'recém inaugurado' hospital gostaríamos de uma posição por quem de direito, e medidas para resolver os problemas, não apenas com minha ente, mas sim com todos que passam por lá, pois moro em uma cidade em que acreditava ser modelo, porém hoje não tenho mais certeza (digo isto para o setor de saúde pública), com referência ao 3º) item é devido a alta rotatividade dos médicos, sendo assim cada um transmite um diagnóstico diferente. Sobre tudo isso eu pergunto: Se a paciente tivesse um acompanhamento mais preciso e com profissionais mais qualificados e preparados, a mesma já poderia estar em sua casa? Evitando assim maiores custos hospitalares?..."

Depreende-se das afirmações constantes na mencionada Escritura Pública de Declaração e dos contatos mantidos com a Senhora Sonia Maria Tartare, que o descontentamento, a aflição, a angústia e a mágoa vivenciadas pela família Tartare, originam-se no descaso e na constatação de que o Hospital Municipal Maria Braido foi precipitadamente inaugurado para atender a interesses políticos.

A morte da Sra. Emília a todos constrange. Recursos públicos devem ser usados a favor e não contra aos anseios e às necessidades da população.

Para evitar a ocorrência de novos e lastimáveis acontecimentos como o acima relatado, a comunidade perplexa com tais fatos, deu vida à Associação dos Amigos da Saúde Emília Alfredo Manganotti - ASEAM.